
Ora viva,
Estamos de volta para mais uma crónica, bem longa por sinal pois como prometido abarcarei o ritmo e estilo de jogar do Benfica, o dérbi do fim-de-semana e a restante jornada.
Vamos então começar pelo ritmo e estilo de jogar do Benfica. Um dos riscos que corre este Benfica de Jorge Jesus é alguns jogadores não suportarem o ritmo imposto pelo treinador. A táctica de Jesus assenta em dois apoios: quando a equipa não tem a bola, procura readquiri-la muito rapidamente, caindo implacavelmente em cima do adversário e asfixiando-o; quando tem a bola, demanda atacar com muitos jogadores.
Mas não é isto o que todas as equipas fazem? Não. A maior parte das equipas, quando o adversário recupera a bola, reposicionam-se no campo e aguardam por ele; Por outro lado, as equipas contra-atacam geralmente com dois ou três jogadores à frente, através de passes compridos em profundidade e grandes correrias; ora o Benfica de Jesus contra-ataca com muitos jogadores, com toda a equipa a adiantar-se no campo, em constantes tabelas e passes curtos, chegando por vezes quatro jogadores em posição de fazer o golo.
Só que esta maneira de jogar provoca muito desgaste e exige um altíssimo índice físico. Isso já se viu no jogo com o AEK, onde o Benfica não foi o mesmo de outros jogos. E no jogo com o Paços de Ferreira, onde fez uma 1.ª parte de grande nível mas se afundou na 2.ª parte. Depois desse jogo houve paragem para as selecções nacionais e volvidos 15 dias para a Taça de Portugal com uma 2ª linha despachou o Monsanto com 6 golos sem resposta. Passado 5 dias para a Liga Europa voltou a despachar desta feita o Everton com 5 golos sem resposta, para 4 dias volvidos aplicar nova chapa 6 ao Nacional da Madeira, onde não convém esquecer uma arbitragem habilidosa mas que os comandados de Jesus se encarregaram de ultrapassar. O jogo seguinte foi em Braga com a primeira derrota na liga a ser imposta pelos arsenalistas. Tivemos nova paragem para selecções e novamente jogo da Taça de Portugal com o afastamento diante de um Vitória de Guimarães, que como disse na última crónica foi um jogo em que desde o primeiro minuto só houve uma equipa a querer vencer, contudo o Guimarães teve o mérito de se apresentar com a lição bem estudada e viu premiado todo um esforço colectivo. Desse jogo, na última crónica para não “deitar achas para a fogueira” nem para dar “desculpas de mau perdedor” decidi não dar grande relevo á dupla falta no golo do Guimarães com o empurrão de Gustavo em Javi Garcia e de Flávio Meireles em Fábio Coentrão. Águas passadas não movem moinhos. E esta semana tivemos o tão famigerado dérbi.
Mas onde é que eu queria chegar? Como sabemos é quase impossível uma equipa ganhar sempre, mas muito mais difícil de acontecer é ganhar e golear ao mesmo tempo! E como o estilo e ritmo de jogo do Benfica provoca muito desgaste e exige um altíssimo índice físico torna-se quase impossível estar sempre a massacrar os adversários, e com estas paragens para as selecções a interromperem tanto o ritmo e intensidade como o fio de jogo mais difícil fica conseguir tal feito. No entanto já sabíamos de antemão que isto ia acontecer, e ao contrário do que muitos já falam, estes últimos resultados só ajudam a comprovar a tese de que é impossível ganhar sempre. Estamos a perder gás? Não me parece crer mas só o futuro o dirá.
Vamos falar então da jornada e do derby de Alvalade. O empate aumenta a angústia do Sporting que não ganha há seis jogos consecutivos para o campeonato. A última vitória data de 20 de Setembro, por 3-2 com o Olhanense. Desde então os leões acumularam uma derrota e cinco empates. Por outro lado, a situação do Benfica no campeonato contínua cómoda, embora agora não possamos preconizar de responder invariavelmente (em jogos oficiais) com uma vitória no jogo seguinte a um empate ou derrota.
Assistimos essencialmente a um jogo táctico, e no que diz respeito às estratégias, para o Sporting foi essencial encostar Matías Fernández a Javi García, pois barrava o Benfica de sair a jogar. Adrien, Moutinho e Miguel Veloso encravavam nos restantes médios benfiquistas, funcionando como peças de bloqueio. Digamos que em termos defensivos ambas as equipas estiveram bem, o que justifica que eu só tenha contabilizado três oportunidades de golo para o Sporting (Polga, Liedson e Miguel Veloso) e três para o Benfica (Cardozo, Di María e Ramires).
A primeira parte foi sobretudo táctica, com Carvalhal que pegara num colectivo até há pouco espatifado a conseguir obrigar o "Benfica arrasador" a mudar de cara. O que não quer dizer que o novo treinador leonino tenha resolvido todos os problemas que se lhe deparam pois à passagem do minuto 20 Jorge Jesus fez uma boa leitura de jogo ao perceber que a superioridade do Sporting assentava no trio de meio-campo e desfigurou o seu 4x1x3x2 num sistema decalcado do do Sporting, mudando as posições relativas de Aimar e Ramires. Aimar foi para a direita, à procura de espaço, Ramires derivou para o meio, onde se juntava muitas vezes a Javi García, e, com o recuo de Saviola para o espaço atrás de Cardozo, contribuía para a igualdade numérica ao meio.
A segunda parte trouxe novidades, percebeu-se que o Benfica procurou subir linhas, pressionar mais à frente, e isso baralhou um pouco os leões, que entraram nervosos e a perder passes consecutivos. O Benfica equilibrou a partida, superiorizou-se até superficialmente e o Sporting deixou que o jogo se partisse, situação que só lhe podia ser adversa, face à velocidade com que normalmente os benfiquistas partem para o ataque. Daí que o Sporting tenha voltado a aliar as linhas e recuperado o ascendente. De ambos os lados havia a percepção de que um jogo aberto seria bem mais perigoso para o Sporting do que para o Benfica. E fica explicada a marcação fechada a Aimar e Saviola. Contudo, aos 68, Jesus voltou a mexer no jogo com perícia: fora Aimar, dentro Rúben Amorim. Com o trabalho de Amorim a juntar-se à continuidade de Ramires e ao acordar de Di María, muitas vezes com espaço para poder enfrentar de frente Pedro Silva em lances de um para um (e que grandes nós lhe deu duas ou três vezes!), os últimos 20 minutos de jogo foram, por isso, do Benfica, que nessa altura, sim, esteve perto de poder vencer. Di María (aos 71') e Rúben Amorim (aos 75'), ambos na sequência de ataques rápidos, foram infrutuosos por duas boas manchas de Rui Patrício.
Resumindo, foi um jogo rico tacticamente mas sem grande brilhantismo ou espectacularidade, com o Sporting a não parecer muito distinto do que já vimos este ano. Os talentos - Liedson, Moutinho, Vukcevic continuam apagados; continuam a não existir laterais por aí, e sendo assim não há muito a fazer, pois Matías Fernández parece bom jogador mas ainda não tem capacidade para carregar com uma equipa às costas.
O grande momento de brilhantismo da partida foi sem duvida um grande pontapé de Miguel Veloso e uma estupenda defesa de Quim. Uma jogada que chispou aos esquemas tácticos e em que predominou o talento individual de ambos. E quando refiro esta jogada como tendo chispado aos sistemas de jogo, estou a falar de mérito e não de erros.
Na verdade, o que anteontem vimos durante os 90 minutos não foi um novo Sporting, que esse ainda não chegou, mas um novo Benfica, mais maduro e matreiro, mais frio e sereno, e mais astuto e tranquilo que apreendeu que era melhor não passar da terceira velocidade não fosse ter uma surpresa. Depois das derrotas em Atenas, em Braga e com o Guimarães, Jorge Jesus percebeu que por vezes é melhor jogar pelo seguro e garantir que não se perde, a jogar à maluca e acabar derrotado, pois quando e onde não se pode ganhar o importante é não perder. O Benfica de anteontem fez-me lembrar o Benfica de Trapattoni, pois nunca arriscou em demasia, e respeitou o facto de estar a jogar em casa do adversário.
Fica a pergunta. O Sporting ainda pode chegar ao título? Não sou muito crente em tal milagre mas já vi tanta coisa no futebol que tudo pode acontecer.
Falando agora do resto da jornada há a destacar a vitória do Guimarães em Olhão por 2 bolas a 0, ficando o aviso para o Porto que se desloca a Guimarães na próxima 6.ªfeira. O Porto também regressou às vitórias após derrotas nos Barreiros e diante do Chelsea no Dragão, tendo batido o Rio Ave por 2 a 1 num jogo em que Paulo Costa e os seus auxiliares não ficam nada bem na fotografia. Há também a destacar a excelente recuperação do Marítimo diante do Belenenses após estar a perder por 2 a 0 e com 10 elementos em campo conseguir empatar 2 a 2, bem como a vitória da Académica diante do Setúbal, o empate na Naval na Choupana diante do Nacional e também do empate entre o Paços de Ferreira e o Leixões na Mata Real. Por último o jogo de hoje que opôs o Braga ao Leiria e deu novamente a liderança isolada ao Braga, que protagonizou uma exibição consistente, com várias oportunidades de golo, e que cedo deitou abaixo a estratégia dos leirienses, com um golo com sorte à mistura de Paulo César, quando tentava apenas cruzar. Mossoró, João Pereira e Paulo César novamente a dar nas vistas, tal como Matheus, que marcou pouco depois de entrar ajudando a fazer o resultado final.
Figura da Semana: Líder Braga
Cartão Amarelo: Juventude Leonina, pois segundo o subintendente da PSP, Costa Ramos, os agentes tiveram de "carregar sobre alguns elementos da Juve Leo, por comportamento inadmissível", já que estavam a "arremessar garrafas contra viaturas que passavam na estrada".
Cartão Vermelho: PSP, pois considerar normal o arremesso de pedras contra o autocarro do Benfica não se coaduna com uma Força de Segurança de um Estado de Direito e com as normas estabelecidas na Constituição da República Portuguesa.
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